Misofonia: uma síndrome ainda em estudo
Não é mania: quem tem aversão a determinados sons pode sofrer de misofonia, problema pouco conhecido e que prejudica muito a rotina da vítima.
12 de Outubro de 2018
filistimlyanin
Comer pastilhas, tossir, pigarrear, respirar de maneira pesada, tamborilar, mexer num papel de rebuçado, andar de saltos altos... Sons tão comuns, presentes no nosso quotidiano, podem transformar-se numa verdadeira tortura para algumas pessoas. Chamada misofonia. A síndrome foi reconhecida há poucos anos e ainda está a ser estudada pelos médicos – mas atrapalha bastante a rotina de quem sofre dela, uma vez que provoca irritação, problemas de relacionamento e afeta até a concentração! Tânia Sanches, otorrinolaringologista, fala sobre o assunto e ensina de que maneira os sintomas podem ser amenizados.
O que provoca tanto mal-estar?
A misofonia ou síndrome da sensibilidade seletiva a sons é uma aversão a barulhos específicos, de volume baixo e repetitivos. Em geral, os sintomas começam a aparecer já na infância ou na adolescência – e desde essa época ela pode ser mal compreendida. Isso porque, como muitos pais ou colegas não entendem o motivo da irritação constante da criança, pode ser rotulada como antissocial. Porém, na verdade, apenas está com problemas de adaptação ao ambiente sonoro.
Reações desproporcionais
A misofonia provoca reações negativas, como raiva, ódio e nojo. Tudo isso se dá de maneira forte, rápida, desproporcional e difícil de controlar. A pessoa pode irritar-se, por exemplo, com o assobio, assoar, ressonar, com o uso de talheres ou o som de chaves. Até latidos e miados despertam esses sentimentos. Por causa disso, uma das tendências de quem sofre com a síndrome é isolar-se.
O que a ciência descobriu?
Há poucos anos que o problema foi reconhecido pela comunidade médica. Por isso, ainda está a ser estudado. Até ao momento sabe-se que todos os sons aos quais submetemos os nossos ouvidos são conduzidos até ao cérebro para serem analisados e compreendidos. E, no caso da misofonia, duas áreas cerebrais são mais ativadas durante a passagem desses barulhos: o sistema límbico (centro das emoções) e o córtex pré-frontal (centro da atenção). Por isso, entre os efeitos imediatos da síndrome, está a falta de concentração. Muitas vezes, a pessoa deixa de prestar atenção numa tarefa importante e passa a focar-se nos sons que lhe provocam irritação. Para quem sofre com a síndrome,
é impossível ignorar esses barulhos...
Companhias desagradáveis
É comum a misofonia surgir acompanhada de outros problemas relacionados com sons. Entre eles estão:
Fonofobia Medo de se expor a barulhos que possam prejudicar a audição.
Hiperacusia Sensibilidade relacionada com o volume dos sons (como televisão e rádio). Pode causar dor nos ouvidos, além de tonturas e mal-estar.
Zumbido Ruídos contínuos ou intermitentes que podem parecer-se com apitos, sons de animais, entre outros.
Linhas de tratamento
A redução dos sintomas da síndrome pode ser feita através da estimulação sonora (em geral com sons baixos, leves e estáveis) que, aos poucos, muda a ativação dos centros de atenção do cérebro. Medicamentos (principalmente nos casos em que outros problemas, como os zumbidos, estão envolvidos) também podem ajudar. Mudanças de comportamento através de terapia e meditação são ainda outros recursos úteis quando o assunto é o tratamento da síndrome. Isso porque quem sofre com ela pode desenvolver ansiedade, pânico ou outras doenças. Além disso, conversar com alguém que também sofre dela faz diferença: por ser um mal que grande parte da população desconhece, é comum sentir-se sozinho ou incompreendido. Descobrir que mais pessoas passam pelas mesmas questões diminui a vergonha e torna mais fácil enfrentar o problema.